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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Write! - Uma carta para João

   Olá, leitores!
   Novo Post da sessão Write, com um conto que escrevi há um tempo atrás =). Espero que gostem ^^.


Uma carta para João.

   Não era de se esperar esse tão forte afeto que transbordava de João. Ah, pobre João. Não passava um dia sequer que conseguisse ficar sem olhar para a bela Maria. Bela sem dúvida e com todas as letras: B-E-L-A, e tenho dito. Seus cabelos caiam sobre seus ombros, tão negros quanto a noite que é fundo para o luar. A pele sedosa. Além disso, possuía um coração de ouro. Sua bondade e gentileza faziam com que todos os rapazes do vilarejo por ela se apaixonassem. Obviamente um desses tolos enamorados era nosso caro João, que já fugia do assunto.
   O rapazote era filho do único padeiro local, este que aparentava te sido esquecido por Deus ou qualquer outra divindade, tamanha eram as desgraças que lhe assombraram ao longo de sua amargurada vida. Fora rico, mas por uma série de desventuras tornou-se apenas mais um desgraçado como tantos outros que rastejam por aquelas bandas. Só lhe sobrara aprender a fazer pão com uma senhora, já quase batendo as botas. Com esse trabalho infeliz e humilde, ganhava dinheiro apenas para pagar a pensão que vivia com o filho e se sustentar.
   João também ajudava no sustento. Além de ajudar nas encomendas do pai, o rapaz ajudava o coveiro. Abria covas, levava os caixões com seus respectivos defuntos, ajudava também na limpeza desses corpos já vazio.
   A estimada donzela, por outro lado era filha do prefeito da cidade. Tinha um belo dote, além de todas as outras qualidades que as moças prendadas da época tinham. Costurava. Seus banquetes? Sempre os mais bem administrados. Dançava em bailes como uma verdadeira fada sobre as nuvens.
   João estava completamente encantado por Maria. Quais foram as noites que ele não passou em claro, pensando em sua prometida? Decerto que não foram poucas.
   Foi-se aproximando a chegada da primavera e um baile já estava sendo planejado pelas damas de alto status na sociedade. Seria no salão do centro. “O mais belo e formal das redondezas” dizia com a mais hipócrita das modéstias a mãe de Maria, a primeira-dama.
   E o dia chegou. João, que não agüentava mais esperar para declarar o seu amor à formosa senhorita, ensaiou um belíssimo discurso, isto é, até onde sua ignorante mente o permitiu. Uma simples, mas poderosa poesia seria declamada, acompanhada pela melodia de um afinado violino. Estava de fato tudo perfeito.
   Maria não podia mais esperar. Sua ansiedade era totalmente perceptível, mas sem nenhum motivo aparente. Apenas sorria em demasia e com um grande brilho no olhar. Fora à modista. Comprara os melhores tecidos! Fizera deles o mais belo dos vestidos. 

   O baile começa.

   Todos os convidados sentiam-se calorosamente recepcionados. A música, a banda. Os garçons e os quitutes. Tudo indo de acordo com os conformes.
   João se vestiu da melhor forma possível. Um colete, já a muito usado no enterro de sua falecida mãe, um chapéu simples de caçador. Seus sapatos pretos e um tanto imundos, faziam parte da vestimenta.
   Tudo fora esquematizado por João: o jantar terá seu início logo após as oito badaladas do sino da capela do Frei Manoel. Todos estarão se divertindo e rindo de algum fato ocorrido na cidade, antes do casal aqui narrado ter nascido. Será anunciada a deliciosa sobremesa. E aí o nosso herói entrará em ação. Declarar-se-à o grande amor que sente por Maria. Será uma surpresa para todos. Ela lhe dará um beijo de grande felicidade. Casar-se-ão em torno de três meses, não mais. Terão juntos muitos filhos e construirão uma linda família. E assim teremos um final feliz, muito merecido por esse sofredor.
   O sino tocou as suas oito alegres badaladas. O momento já se aproximava e João e Maria estavam com os nervos à flor da pele.
   O Duque - a presença ilustre do baile, vindo a pedido de seu cunhado, o prefeito – estava, depois de algumas conversas e de longos quarenta e cinco minutos na mente de João, pedindo aos garçons que trouxessem a sobremesa.
   João já estava se levantando e o violinista já se aproximava, quando a jovem senhorita pediu licença da mesa, dizendo que iria ao toilet. Tudo, é claro, com a maior sutileza e formalidade para passar-se por despercebida.
   Passou-se cerca de três quartos de hora e Maria ainda não havia voltado. Os criados já haviam saído do aposento para procurá-la.
   João já estava mais do que preocupado: estava angustiado e agonizando pelos cantos. Onde fora sua doce amada? Este que já não agüentava mais ficar sentado, decidiu ajudar na busca. Saiu do salão. Tomou a ousadia de invadir os aposentos na casa de Maria sem que ninguém o visse, apenas em um gesto silencioso.
   Foi sobre a cama que a viu. Não Maria, mas sim uma pequena carta. Cheirosa e com a caligrafia fina e delicada. Era de Maria, endereçada ao assustado João.
   Abriu-a sem mais delongas. Nela era possível ser lido o seguinte:

“Querido Joaquim,

   Com esta carta venho pedir-lhe da forma mais humilde a sua ajuda para com a minha pessoa. Sei que tens por mim um grande afeto, cujo qual acredito que seja apenas um carinho muito forte e respeito pela classe que meu pai se encontra. Por isso, quero que me ajude nesse momento de desespero, no entanto feliz de minha vida. Hoje, por volta das nove badaladas, meu grande amor virá às escondidas me buscar, para que possamos juntos viver um grande romance! Teremos vários filhos e seremos uma linda família, isso longe daqui.
    Enfim, preciso que atrapalhe a busca que à este momento já deve ter dado início por todo o condado. Peço-lhe com toda a minha gratidão que nos ajude. Um dia, Deus saberá recompensar-lhe, trazendo para ti a mais bela de todas as mulheres.

Grata,
    Maria.
   
   PS.: Deixo-lhe como guardião de nosso segredo. Se algum dia precisares de algum favor, não hesite em nos procurar. Segue abaixo o endereço...”

   As taciturnas badaladas recomeçar. Nove dessa vez.
   João estava abismado. Sem reação. Sem mais qualquer emoção.
   Dirigiu-se lentamente para o salão, onde todos já estavam aflitos aguardando a volta de Maria.
   João foi até o prefeito e entregou-lhe a carta, ainda cheirando a jasmim, que a linda filha deixara para trás.
   Naquele momento, todos os militares puseram-se a cavalgar o mais rápido possível para a aldeia em que Maria se escondia.
   Ao amanhecer, os homens voltavam, trazendo Maria em um dos cavalos. Amarrada dos pés a cabeça. No cavalo ao lado um corpo balançava.
   Não tardou para que o prefeito, desgostoso com a vida, mandasse que Maria fosse cruelmente castigada.
   A pobre garota veio adoecer, tanto por ter perdido o homem que amava, quanto pelas surras que levara do pai. Não tardou a falecer.
   João, que nada podia fazer, apenas assistia a tudo.
   Passaram-se alguns anos e João, mais acabado do que da ultima vez, conheceu Gabriela. E com ela foi feliz.

Atenciosamente,
@LeoGNobrega



segunda-feira, 7 de março de 2011

Write! 2 - Rotina

   Olá novamente!
   Estou deixando aqui um segundo post da seção Write!. Desta vez não é uma poesia e sim um conto. HAVE FUN!

ROTINA
   Toco o chão...
   Acordo. Abro meus olhos. Jogo o despertador longe. Que objeto mais irritante.
   Irritante.
   Me levanto. Olho ao meu redor.
   O velho abajur continua em cima do velho criado-mudo. Meu colchão no chão empoeirado. Os lençóis que já serviram há algum tempo como banquete de traças.
   O tempo fora do meu cubículo – minha cela – é triste, medonho. Molhado. Vejo as nuvens raivosas pela janela suja. Preciso me lembrar de limpar, mas não agora.
   Cigarro. Café. As únicas coisas que quero fazer agora são fumar e me entupir de café. “Chafé”.
   Gotas. Barulho na janela. Droga. Vou me molhar pra ir pro meu inferno.
   Acendo meu cigarro. Ponho a água pra ferver.
   Banheiro.
   Abro a janela oposta onde pode entrar um ar úmido. Ar. Afinal, onde está o meu ar?
   Fico observando as espirais provocadas pelo meu cigarro.
   A água está fervendo. Me queimo, como de costume. Pego o café solúvel. Bebo o liquido com nojo.
   Nojo.
   Jogo água na cara gasta pelo desgosto. Pela vida vazia. Por tudo que afunda.
   Escovo meus dentes. Amarelos pelo tempo, cigarro, café.
   Meu Jeans rasgado. Meu All Star preto, com um buraco no lado, semelhante à meia velha.
   Saiu da prisão.
                      
         ELEVADOR QUEBRADO. FAVOR USAR AS ESCADAS.

   Merda! Porra!
   Tentei me lembrar de mais algum palavrão. Preguiça ganha. Como de costume.
   Costume.
   Tudo igual.
   Rotina. Monotonia. Tédio.
   Angustia.
  
    Desço as escadas. Um lance. Dois lances. Abro a porta do inferno urbano. Fumaça. Barulho. Gente.
    Sistema.
    Pessoas controladas. Sem vida. Cinzas. Escuras. Automáticas. Seguem seus caminhos sem ver.
    Sem perceber.
    Sem viver.
    Robôs.
    A chuva ainda cai. Fria. Gélida. Meias molhadas. Corpo de um frio morto.
    Somos mortos.

   Carros passando. Máquinas em movimento. Correndo.
   Chego.

   Cheiro de café. De terno. De trabalho.
   Me troco e tiro a roupa ensopada. Me transformo em um deles. Sapatos. Camisa. Calça.
   Café.
   Arquivos. Computadores. Pastas.
   Mais pessoas.
   Mais robôs.
   Sempre sorrindo. Sempre contentes. Sempre abaixando a cabeça.
   Hipócritas. Fracos.
   Irritante.
   Então fico sentado na frente daquele maldito computador. Obedecendo. Sendo um deles. Quase.
   Sem sorriso. Sem felicidade extrema e superficial.
   Sendo um semi-humano.
   Semi.
   Essa chuva fica fazendo esse barulho irritante na janela.
   Dando sono. Café.
   Hora do almoço. Não como. Aquele lixo nojento. Gosto de plástico. Gosto de algo que é irreal. Industrial. Comercial.
   Dormir. Afinal, tenho essa merda de tempo pra algo útil.
   ACORDA, SEU VADIO!
   Filho da puta! Acorda a mãe! Pensei.
   Só pensei.
   Devia ter gritado com esse imbecil. Gelzinho no cabelo. Camisa toda engomadinha. Pinta de galã de novela mexicana.
   Ou como piada interna, “O comedor do financeiro”.
   Mulher em casa, filho na escola e comendo a secretária. Quem é o vadio?
   Final de expediente.

   Chuva.

   Casa. Banho. Macarrão instantâneo. Cerveja. Cigarro.
   De volta na cela-casa. Cela.
   Cansaço. De saco cheio dessa porra toda.
   Preciso viver. Respirar.
   Vida.
   Telefone toca. Festa. Mais gente. Novos robôs. Saco.
   Me troco. Ponho roupas secas. Tênis seco.
   Saio.

   Pela primeira vez eu não saio do cubículo fedorento de baixo de chuva.
   Caminho até o lugar da festa. Divertida. Animada. Estressante. Ridícula.
   As pessoas me observam. Observo as pessoas. Padrão de gente.

   Festa rolando. Gente se pegando. Gente pulando. Bêbados. Gente.
   APARECEU, É, FILHO DA MÃE? Bêbados.
   Um minuto. Dois minutos. Três minutos... Uma hora. Duas horas.
   Chega. Basta.

   Volto pra casa.
   Quase.
   Passo em frente a minha porta. Subo mais um lance de escadas.
   Telhado.
   Parapeito.
   Trovões.
   De onde me encontro vejo as pessoas andando. Sorrindo. Rindo. Vivendo. Amando.
   Amando. Vivendo. Respirando.
   Me falta viver.
   Mais trovões.
   Pulei.

   Estava livre. Voava. Respirava. Sorria. Chorava e ria.
  Gritava.
   As pessoas me olhavam assustadas. Apavoradas.
   Olhos arregalados.
   O vento assovia em meus ouvidos.
   Toco o chão.

   Acordo... de novo.
   Irritante.
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Bem, pessoal. É isso. Só pra deixar claro eu não vou cometer suicídio, ok?

Atenciosamente,
@LeoGNobrega

 
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