segunda-feira, 7 de março de 2011

Write! 2 - Rotina

   Olá novamente!
   Estou deixando aqui um segundo post da seção Write!. Desta vez não é uma poesia e sim um conto. HAVE FUN!

ROTINA
   Toco o chão...
   Acordo. Abro meus olhos. Jogo o despertador longe. Que objeto mais irritante.
   Irritante.
   Me levanto. Olho ao meu redor.
   O velho abajur continua em cima do velho criado-mudo. Meu colchão no chão empoeirado. Os lençóis que já serviram há algum tempo como banquete de traças.
   O tempo fora do meu cubículo – minha cela – é triste, medonho. Molhado. Vejo as nuvens raivosas pela janela suja. Preciso me lembrar de limpar, mas não agora.
   Cigarro. Café. As únicas coisas que quero fazer agora são fumar e me entupir de café. “Chafé”.
   Gotas. Barulho na janela. Droga. Vou me molhar pra ir pro meu inferno.
   Acendo meu cigarro. Ponho a água pra ferver.
   Banheiro.
   Abro a janela oposta onde pode entrar um ar úmido. Ar. Afinal, onde está o meu ar?
   Fico observando as espirais provocadas pelo meu cigarro.
   A água está fervendo. Me queimo, como de costume. Pego o café solúvel. Bebo o liquido com nojo.
   Nojo.
   Jogo água na cara gasta pelo desgosto. Pela vida vazia. Por tudo que afunda.
   Escovo meus dentes. Amarelos pelo tempo, cigarro, café.
   Meu Jeans rasgado. Meu All Star preto, com um buraco no lado, semelhante à meia velha.
   Saiu da prisão.
                      
         ELEVADOR QUEBRADO. FAVOR USAR AS ESCADAS.

   Merda! Porra!
   Tentei me lembrar de mais algum palavrão. Preguiça ganha. Como de costume.
   Costume.
   Tudo igual.
   Rotina. Monotonia. Tédio.
   Angustia.
  
    Desço as escadas. Um lance. Dois lances. Abro a porta do inferno urbano. Fumaça. Barulho. Gente.
    Sistema.
    Pessoas controladas. Sem vida. Cinzas. Escuras. Automáticas. Seguem seus caminhos sem ver.
    Sem perceber.
    Sem viver.
    Robôs.
    A chuva ainda cai. Fria. Gélida. Meias molhadas. Corpo de um frio morto.
    Somos mortos.

   Carros passando. Máquinas em movimento. Correndo.
   Chego.

   Cheiro de café. De terno. De trabalho.
   Me troco e tiro a roupa ensopada. Me transformo em um deles. Sapatos. Camisa. Calça.
   Café.
   Arquivos. Computadores. Pastas.
   Mais pessoas.
   Mais robôs.
   Sempre sorrindo. Sempre contentes. Sempre abaixando a cabeça.
   Hipócritas. Fracos.
   Irritante.
   Então fico sentado na frente daquele maldito computador. Obedecendo. Sendo um deles. Quase.
   Sem sorriso. Sem felicidade extrema e superficial.
   Sendo um semi-humano.
   Semi.
   Essa chuva fica fazendo esse barulho irritante na janela.
   Dando sono. Café.
   Hora do almoço. Não como. Aquele lixo nojento. Gosto de plástico. Gosto de algo que é irreal. Industrial. Comercial.
   Dormir. Afinal, tenho essa merda de tempo pra algo útil.
   ACORDA, SEU VADIO!
   Filho da puta! Acorda a mãe! Pensei.
   Só pensei.
   Devia ter gritado com esse imbecil. Gelzinho no cabelo. Camisa toda engomadinha. Pinta de galã de novela mexicana.
   Ou como piada interna, “O comedor do financeiro”.
   Mulher em casa, filho na escola e comendo a secretária. Quem é o vadio?
   Final de expediente.

   Chuva.

   Casa. Banho. Macarrão instantâneo. Cerveja. Cigarro.
   De volta na cela-casa. Cela.
   Cansaço. De saco cheio dessa porra toda.
   Preciso viver. Respirar.
   Vida.
   Telefone toca. Festa. Mais gente. Novos robôs. Saco.
   Me troco. Ponho roupas secas. Tênis seco.
   Saio.

   Pela primeira vez eu não saio do cubículo fedorento de baixo de chuva.
   Caminho até o lugar da festa. Divertida. Animada. Estressante. Ridícula.
   As pessoas me observam. Observo as pessoas. Padrão de gente.

   Festa rolando. Gente se pegando. Gente pulando. Bêbados. Gente.
   APARECEU, É, FILHO DA MÃE? Bêbados.
   Um minuto. Dois minutos. Três minutos... Uma hora. Duas horas.
   Chega. Basta.

   Volto pra casa.
   Quase.
   Passo em frente a minha porta. Subo mais um lance de escadas.
   Telhado.
   Parapeito.
   Trovões.
   De onde me encontro vejo as pessoas andando. Sorrindo. Rindo. Vivendo. Amando.
   Amando. Vivendo. Respirando.
   Me falta viver.
   Mais trovões.
   Pulei.

   Estava livre. Voava. Respirava. Sorria. Chorava e ria.
  Gritava.
   As pessoas me olhavam assustadas. Apavoradas.
   Olhos arregalados.
   O vento assovia em meus ouvidos.
   Toco o chão.

   Acordo... de novo.
   Irritante.
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Bem, pessoal. É isso. Só pra deixar claro eu não vou cometer suicídio, ok?

Atenciosamente,
@LeoGNobrega

 
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